sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O ASSALTO-SURPRESA!



Já deve ter se passado mais ou menos umas 3 horas. - pensei

O pânico na sala era tão forte que dava pra sentir de longe. Nunca fui refém de bandidos, ninguém aqui foi, essa era a pior sensação que uma pessoa poderia ter. Estar presa sob a mira de homens maus que querem seus bens materiais, ou a sua vida é a pior sensação do mundo.

Eu queria ir embora, cada parte do meu corpo me dizia para dar um jeito e fugir, minha mente tentava bolar milhares de formas de sair daquela sala sem que eles me vissem, mas fugir de 5 homens bem armados parecia ser uma  coisa impossível agora.

Desde  cedo eu sentia uma ansiedade tremenda, eu sabia que aquele não era o momento de eu estar la, sabia que eu deveria estar em casa, dormindo ou estudando, qualquer coisa, menos aqui, mas eu fui teimosa, desconsiderei a minha intuição e continuei. Uma hora e meia depois, 5 homens armados entraram e renderam todos nós. Quinze pessoas, em uma escola de Ballet. Levaram tudo oque tínhamos, dinheiro, cartões, celulares e até algumas das minhas roupas. Colocaram a arma na minha cabeça, e me fizeram ajoelhar no chão só pelo prazer de sentir o pânico de todos a sua volta. Ameaçaram todos nós. Se gritássemos ou chamassem a polícia iriam estourar nossos miolos, disseram eles. Frase um pouco pesada para crianças de 10 a 15 anos, inofensivas, eu pensei.
Meu maior medo naquele momento era se alguém aparecesse, algum pai de aluno, algum cliente, outro professor, ou qualquer pessoa. Suas vidas seriam colocadas em risco também, e  pessoas em risco tinham demais por aqui.

Se passaram mais 2 horas. Todos estavam cansados , as crianças não paravam de chorar, e meu nível de exaustão não se escrevia. Pensei em ir negociar com os bandidos, o que será que eles queriam? Já tinham nos levado tudo, porque não deixavam as pessoas irem embora?
Foi ai que levantei. Três deles encapuzados olharam para mim com espanto e apontaram a arma.

-Calma! Eu só quero negociar. Não tenho como fazer mal a vocês, então por favor, abaixem as armas.
Eles não abaixaram. Continuaram estáticos, no mesmo lugar. Fiquei em dúvida se isso era um bom sinal ou não.

- estamos aqui à mais 5 horas. Vocês pegaram tudo oque era nosso, não chamamos a polícia, e nem iremos chamar, porque não nos deixam ir embora? Tem muitas crianças aqui, elas estão abaladas, assustadas, deixem ao menos elas irem. - eu disse

E uma onda de risos dos 5 bandidos tomou  conta da sala. Todos olharam para eles sem entender o porque de tantas gargalhadas. Uns tinham o terror expresso nos olhos, e outros até acharam divertido. Eu apenas fiquei séria e esperei eles terminarem.

- Ir embora?  - Perguntou o homem de capuz. - Não acho que seja possível senhorita, temos muito a ganhar por aqui ainda.

-Ganhar? O que você quer dizer com isso? Já demos tudo o que temos! - gritei

Outro homem se levantou da cadeira que estava sentado e me olhou dos pés a cabeça. Ele começou a se aproximar e parou na minha frente.

- Qual o seu nome senhorita? -perguntou ele
Aquela voz era familiar, pensei. tinha ouvido em algum outro lugar, só não lembrava onde.

-Juliana. Assistente de sala da escola. - eu disse. Minha voz tremeu um pouco, aquele homem passava uma sensação de autoridade incrível. Eu o conhecia… Só precisava lembrar da onde.

-Então senhorita Juliana, sinto lhe informar, mas vocês não serão liberados agora. Tem coisas que ainda  queremos aqui. Você e suas crianças terão que esperar mais algumas horas talvez, e ai sim, iremos embora.

- Coisas?! Que coisas???! Não tem mais nada aqui, eu posso garantir isso a você, nós deix…

-SILÊNCIO. TEMOS COISAS A RESOLVER AQUI, ENTÃO XIIIIIU! SEM MAIS DELONGAS. SENTE SE COM OS OUTROS E FIQUE QUIETA SE NÃO QUISER TER SUA CABEÇA ABERTA! - gritou o rapaz

Congelei. Não esperava essa atitude. Qualquer outra, menos essa. Detesto pessoas que brigam com as outras com palavras que não são tão ofensivas para o momento. Sempre tive na minha mente que essas são as piores pessoas. Comecei a a andar, e sentei onde estava. O medo não estava mais em mim, raiva talvez descrevesse. Eu estava começando a achar aquele assalto patético. Oque 5 homens iriam querer em uma escola de dança? E de onde será que conheço a voz daquele homem?
Desisti de pensar e fechei os olhos.

Acordei horas depois, eu acho. A sala agora estava vazia, todas as pessoas tinham sumido,  eu estava só e totalmente perdida. Para onde todos tinham ido? Porque não me levaram junto? Será que as crianças estão bem? Será que houve algum incidente e me esqueceram aqui?
Corri para a porta e ela estava trancada. Gritei e bati nela por muito tempo, mais ninguém me ouvia. O pânico começou a tomar conta de mim novamente, comecei a chutar e quebra as  coisas na minha frente, tentei fazer mais zoada que pude, mas nada aconteceu.
Comecei a chorar. Não era possível que isso estivesse acontecendo comigo. Porque sempre comigo? Faltavam apenas dois dias para o meu aniversário. Será que eu estaria viva para comemorar meus 23 anos?
E a porta se abriu. Dela entraram ao menos 100 pessoas de todos os tamanhos, com os rostos encapuzados e balões na mão.
Não consegui entender nada. Oque estava acontecendo aqui? E foi ai que o mesmo homem de antes voltou, dessa vez sem capuz, e eu lembrei quem era. Jonny, meu tutor na época do colegial, o homem que me ensinou tudo oque eu sei. Ele saiu correndo e parou de costas para a multidão, olhando para mim e sorrindo. Eu não entendi mais nada, meu coração estava acelerado, e eu estatalada. Não conseguia me mexer ou pensar, até que todos tiraram os capuzes, sorriram para mim e gritaram:

-FELIZ ANIVERSÁRIO JULIANA!!!!!

Minha primeira reação foi rir, a segunda foi chorar até soluçar. No meio daquela multidão estava meu pai, minha mãe, milhares de amigos e o pessoal da escola.
-Você não pediu um aniversário que  você nunca fosse esquecer Juli? - disse rindo muito, o meu pai.
-Pois esse você nunca esquecerá querida!!
E tudo ficou escuro. A última coisa que lembro foram meus joelhos batendo no chão.


Conto por: Isabelle Freire


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